Segunda-Feira, 22 de Maio de 2017, 10h:55

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Por Emir Sader

Quem tem medo da democracia

O governo do golpe deu errado porque violou a vontade popular e governou para o capital financeiro.
 
Diante do fracasso do governo Temer, a democracia reaparece no horizonte como a forma pela qual o Brasil pode se reencontrar consigo mesmo, pode se reunificar como país, pode encontrar os espaços para a convivência de todos os pontos de vista e interesses em um marco institucional. Mas nessa hora a democracia assusta aos que têm medo do povo. Apela-se até para a história de que retomar eleições direitas para presidente seria um golpe, da forma mais paradoxal. Democracia seria golpe e golpe seria o que?
 

Instaura-se o pânico nas elites dominantes. Depois do golpe, mesmo diante da falta de resultados econômicos positivos e da falta total de apoio popular, as elites estavam dispostas a seguir com Temer, como o mal menor. Depois de se pronunciar pela impossibilidade de um Congresso povoado de parlamentares comprometidos com a corrupção eleger um novo presidente e que nesse caso só mesmo eleições diretas poderiam definir um novo presidente legitimo, a FSP e FHC, entre outros, preferiram retroceder e lutar, como seja, pela manutenção do Temer, mesmo ferido de morte.

 

Porque não encontram alternativa que possa recompor o consenso que lograram para o golpe e se apavoram diante da possibilidade do povo intervir na crise e votar para presidente. Têm medo da democracia.

 

Porque um governo antipopular como este, apoiado por toda a direita, promoveu a popularidade de quem fez governo radicalmente oposto e fez de Lula, de novo, o favorito para se tornar presidente do Brasil. Lula é o nome do pânico das elites, do medo à democracia.

 

Porque só governos escolhidos pelo povo têm legitimidade, credibilidade, força, apoio, para enfrentar os problemas do país, mesmo os mais graves. E o governo do golpe só aumentou os problemas existentes e introduziu vários outros. Hoje o Brasil vive uma profunda depressão econômica, com alto nível de desemprego, uma crise social como não se conhecia há tempos, uma falta de legitimidade do governo e uma crise de credibilidade da política.

 

O governo golpista foi instalado para retomar o modelo neoliberal de Collor e FHC, derrotado em quatro eleições. Foi a via que a direita conseguiu de derrotar os governos do PT. Para isso teria que fazer aprovar o pacote de medidas regressivas e antipopulares que mandou ao Congresso e avançar na privatização, antes de tudo da Petrobras.

 

Enquanto avançava nessa direção, a direita unida o apoiava, não importavam as acusações de corrupção que envolviam a cada vez maior número de membros do governo e ao próprio Temer. Os fins justificavam os meios. Não era para acabar com a corrupção que o golpe havia sido dado, mas para acabar com o governo do PT.

 

Mas conforme as mobilizações populares, o enfraquecimento da base parlamentar do governo, a inviabilização da aprovação do pacote de projetos do governo se tornava uma realidade, Temer foi se tornando um estorvo. As denúncias contra ele retornaram e ganharam vulto, primeiro pelo TSE, depois pelas delações da JBS. A mídia abandonava Temer e partidos da base do governo iniciavam uma deserção em massa.

 

Aí voltou o pânico: fim do governo Temer, sem amadurecimento de uma alternativa dentro do golpe. E risco de um novo golpe gerar um governo ainda mais frágil. FHC, FSP, que haviam pedido a renúncia de Temer, voltaram atrás, junto a outras vozes dentro do golpe. O mal menor ainda tem possibilidade de ter vigência ou a deslegitimação do governo golpista é irreversível.

 

O fantasma da democracia, o fantasma das eleições, o fantasma do Lula reapareceram e o pânico se instaura. O medo do retrocesso em relação às medidas antipopulares já aprovadas, o medo do estancamento da privatização da Petrobras, o medo do retorno de um governo que retome o desenvolvimento econômico e seus programas de distribuição de renda – tudo isso tira o sono da direita brasileira, que enveredou por um caminho que a divide e lhe coloca desafios que talvez não saiba resolver.

 

Um Brasil democrático será, antes de tudo, um Brasil que seja governado por quem o povo escolheu. O governo do golpe deu errado porque violou a vontade popular, porque governou conforme os interesses da minoria, do grande empresariado, do capital financeiro.

 

A democracia é o lado certo da história, porque respeita o direito da maioria, porque submete os governos ao voto popular, porque elege representantes conforme a decisão autônoma do povo e não conforme o poder do dinheiro.

 

Quem tem medo da democracia, tem medo do povo, tem medo da maioria, tem medo das eleições, tem medo do controle popular sobre os governos, tem medo de que o povo seja solução e não problema.

 

Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

 

(artigo originalmente publicado na Rede Brasil Atual)

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